Algumas das pessoas mais difíceis de liderar também são as que demonstram maior potencial. Elas têm conhecimento, iniciativa, coragem e desejo de fazer alguma coisa relevante. O problema é que querem assumir responsabilidades antes de aprender a caminhar sob liderança.
Quando alguém assim aparece na igreja, o líder pode cair em dois erros: cortar a pessoa cedo demais ou promovê-la rápido demais. Potencial sem maturidade não deve ser desperdiçado, mas também não deve receber autoridade antes da hora.
O melhor caminho pode ser um processo intencional de discipulado que ajude essa pessoa a compreender autoridade, submissão, legitimidade e tempo.
1. Não confunda potencial com preparo
Uma pessoa pode conhecer muito da Bíblia, comunicar-se bem e demonstrar grande capacidade de liderança. Ainda assim, pode não estar pronta para receber uma posição.
Conhecimento não substitui caráter. Iniciativa não substitui submissão. Talento não substitui maturidade.
Antes de promover alguém, observe se essa pessoa consegue:
- receber orientações sem reagir com arrogância;
- seguir processos que não foram criados por ela;
- respeitar quem já está exercendo autoridade;
- esperar o momento certo sem tentar forçar espaço;
- servir com fidelidade mesmo quando não recebe destaque.
Quem não consegue ser liderado dificilmente estará preparado para liderar outras pessoas.
2. O zelo de Paulo precisou passar por um processo
Após sua conversão, Paulo tinha convicção, conhecimento e uma enorme disposição para anunciar o evangelho. Mas seu potencial não fez com que todos imediatamente reconhecessem sua liderança.
Antes de ocupar um espaço maior, ele precisou atravessar um processo. Barnabé teve um papel importante ao acolhê-lo, acompanhá-lo e abrir caminhos para que seu chamado fosse reconhecido.
Paulo não começou liderando tudo. Ele aprendeu a caminhar com alguém, servir dentro de uma missão e construir confiança.
Esse princípio continua válido: uma pessoa pode ter um grande chamado e ainda precisar aprender a caminhar debaixo de liderança.
Talvez o liderado que hoje parece difícil não precise ser descartado. Talvez precise de alguém que faça por ele o que Barnabé fez por Paulo: enxergar seu potencial sem ignorar suas áreas de imaturidade.
3. Ter razão não significa ter autoridade para agir
Jesus conhecia a corrupção que acontecia no templo. Ele certamente não descobriu o problema apenas no dia em que expulsou os comerciantes e cambistas.
Mesmo assim, não agiu de forma precipitada. Houve um momento específico em que sua ação pública comunicou sua autoridade e confrontou diretamente aquele sistema.
Essa história ensina algo importante para líderes jovens e impacientes: perceber um problema não significa que você já recebeu autoridade para resolvê-lo da maneira que quiser.
É possível estar certo sobre o problema e errado na forma de agir.
É possível ter discernimento, mas não ter responsabilidade sobre aquela área.
É possível identificar uma falha real e, ao tentar corrigi-la sem autoridade, produzir um problema ainda maior.
4. Ensine a diferença entre autoridade legal e legitimidade
Para exercer uma liderança saudável, uma pessoa precisa desenvolver pelo menos dois tipos de autoridade.
Autoridade legal
É a autoridade recebida oficialmente. A pessoa foi nomeada, reconhecida ou encarregada de determinada responsabilidade.
Ela não assumiu o lugar porque decidiu que era a mais preparada. Alguém com autoridade confiou aquela função a ela.
Legitimidade diante das pessoas
É o reconhecimento conquistado por meio de caráter, serviço, coerência e relacionamentos.
Um título pode obrigar pessoas a obedecerem externamente, mas não pode forçá-las a confiar. A nomeação concede uma posição; a legitimidade faz com que as pessoas desejem seguir.
Os dois elementos são necessários.
Sem nomeação, a pessoa pode tentar exercer uma autoridade que ainda não recebeu. Sem legitimidade, ela pode ocupar formalmente uma função, mas não conseguir conduzir ninguém.
5. Não tente corrigir tudo em uma única conversa
Um liderado impulsivo ou insubmisso provavelmente não mudará porque recebeu uma repreensão de vinte minutos.
Talvez seja necessário criar um processo específico de discipulado com quatro, cinco ou seis encontros. Em vez de apenas afirmar que a pessoa está errada, ajude-a a enxergar os princípios bíblicos envolvidos.
Esse processo pode abordar temas como:
- como receber correção;
- por que Deus trabalha por meio de autoridades;
- a diferença entre chamado e posição;
- como conquistar confiança;
- como esperar sem se tornar passivo;
- como discordar sem romper a unidade;
- como servir antes de ocupar o centro.
A cada encontro, use histórias bíblicas, faça perguntas e proponha atitudes concretas.
O objetivo não é quebrar a personalidade forte da pessoa. É ajudá-la a transformar força em serviço, coragem em responsabilidade e iniciativa em liderança madura.
6. Dê responsabilidades proporcionais à maturidade
Uma pessoa não precisa receber um grande cargo para começar a ser desenvolvida.
Você pode oferecer pequenas responsabilidades e observar como ela reage:
- Ela segue as orientações combinadas?
- Ela presta contas do que fez?
- Ela sabe trabalhar com outras pessoas?
- Ela respeita os limites da função?
- Ela aceita correções sem abandonar a tarefa?
- Ela celebra o trabalho dos outros ou tenta disputar espaço?
Responsabilidades menores revelam como a pessoa lidará com responsabilidades maiores.
Se ela demonstra fidelidade, humildade e crescimento, novos espaços podem ser abertos. Se continua ignorando orientações e atropelando pessoas, ainda não está pronta.
7. Não premie a insubmissão com uma posição
Às vezes, para evitar conflitos, um líder entrega uma função à pessoa mais insistente. Parece uma solução rápida: ela quer liderar, então recebe uma liderança.
Mas isso ensina uma mensagem perigosa para toda a equipe: quem pressiona mais consegue o que deseja.
Além disso, a autoridade ampliará aquilo que já existe dentro da pessoa. Se há humildade, ela terá mais oportunidades de servir. Se há arrogância, ela terá mais recursos para controlar, ferir e dividir.
Um cargo não cura a imaturidade. Normalmente, ele a torna mais visível.
Por isso, não promova alguém apenas porque é talentoso, impaciente ou difícil de administrar. Desenvolva primeiro. Observe depois. Confie gradualmente.
Transforme potencial em maturidade
O liderado mais difícil de hoje pode se tornar um líder valioso no futuro. Mas isso não acontecerá apenas porque ele recebeu espaço. Será necessário ensino, acompanhamento, correção, serviço e tempo.
Não destrua o potencial da pessoa, mas também não permita que o potencial seja usado como desculpa para a insubmissão. Grandes líderes não apenas reconhecem chamados; eles ajudam pessoas chamadas a atravessarem o processo necessário para sustentá-los.
Para aprofundar, assista ao vídeo Como desenvolver um líder com grande potencial, mas sem submissão.
Quer continuar crescendo em sua liderança e ministério? Participe da nossa Mentoria Coletiva Gratuita da Converge Brasil, que acontece todo mês, e receba direção e ferramentas práticas para o seu chamado.