O problema da sua equipe não é falta de compromisso: é o sistema que você criou

Você acabou de sair de um congresso, uma mentoria ou um retiro de liderança. O caderno está cheio de anotações. O coração está cheio de ideias novas. Dessa vez, você pensa, vai ser diferente.

Duas semanas depois, nada mudou.

Você tenta compartilhar o que aprendeu numa reunião de equipe e recebe aquele olhar educado, meio distante, de quem já ouviu isso antes. Você se pergunta por que ninguém parece tão animado quanto você. E, devagar, aquela ideia incrível vai murchando até virar só mais uma página esquecida no caderno.

Se isso já aconteceu com você, aqui vai uma boa notícia: o problema não é falta de compromisso da sua equipe. E aqui vai uma notícia ainda melhor: também não é falta de visão sua. É outra coisa, bem mais simples de identificar do que parece. O sistema que já está rodando na sua igreja ou no seu ministério é mais forte do que qualquer ideia nova que você tenta colocar em cima dele.

Falar de sistema não é coisa de empresa, é coisa de Deus

Talvez você já tenha ouvido, ou até pensado, algo assim: “igreja não é empresa, não precisamos de tanta estrutura”. Existe uma desconfiança grande, principalmente em ambientes ministeriais, com tudo que soa organizacional demais.

Mas pense um instante. Antes de criar o ser humano, Deus criou um sistema: o sistema solar. E quando formou o corpo humano, criou o sistema mais sofisticado que já existiu, tão complexo que a ciência ainda está descobrindo como ele funciona, depois de séculos de estudo.

É por isso que ir ao médico faz sentido. O médico entende como o seu corpo deveria estar funcionando. Quando alguma coisa sai do lugar, ele não fica apenas orando pela sua recuperação: ele identifica o que está fora do padrão dentro do sistema e ajusta o que for preciso.

A natureza inteira funciona em sistemas. Deus criou e sustenta o universo por meio de sistemas. Então pensar em sistemas não é uma abordagem fria ou “menos espiritual” de liderar. É, na verdade, seguir o mesmo princípio que Deus usou para organizar tudo o que existe.

Sua igreja, seu ministério, sua organização: tudo isso é um conjunto de sistemas trabalhando, ou brigando, entre si. Se você não aprender a resolver problemas olhando para os sistemas, vai passar a vida inteira culpando pessoas, trocando voluntários e sendo cada vez mais crítico com a natureza humana, sem nunca chegar à raiz do que está errado.

A frase que muda tudo: sistemas criam comportamentos

Aqui está o princípio mais importante deste texto. Se você guardar só uma frase, guarde esta: sistemas criam comportamentos.

Não são as pregações. Não são os treinamentos emocionantes. Não é aquele culto especial, cheio de testemunhos e música linda. São os sistemas que moldam, no dia a dia, o que as pessoas realmente fazem.

Você já deve ter feito aquela série incrível sobre casamento. Meses de preparo, testemunhos reais, um convite forte para renovar os votos. Todo mundo chorou. Todo mundo se emocionou.

Duas semanas depois, os mesmos casais brigando pelos mesmos motivos de sempre.

Por quê? Porque pregação não cria comportamento duradouro. Sistema cria.

O mesmo vale para outras áreas da sua igreja:

  • Você não consegue que as pessoas convidem amigos porque falta um discurso convincente sobre evangelismo. Falta um sistema que gere uma experiência tão boa que convidar se torne natural.
  • Você não consegue que as pessoas entrem em grupos pequenos porque elas são fechadas ou individualistas. Falta um sistema que facilite e incentive esse próximo passo.
  • Você não tem voluntários suficientes porque “ninguém quer se comprometer hoje em dia”. Falta um sistema que prepare, envolva e valorize quem serve.

Perceba o padrão. Toda vez que você ouvir, ou disser, frases como “nosso pessoal simplesmente não quer se envolver”, preste atenção: você está diante de alguém que ainda não enxergou o poder dos sistemas.

Os cinco ingredientes por trás de qualquer sistema

Se você quer entender por que sua equipe se comporta do jeito que se comporta, olhe para estes cinco pontos. Eles aparecem em qualquer sistema, desde a sua casa até a sua igreja:

  • Expectativas. O que está claro, ou nada claro, sobre o que se espera de cada pessoa?
  • Recompensas. O que você celebra, elogia ou reconhece, intencionalmente ou não?
  • Consequências. O que acontece, ou não acontece, quando alguém não corresponde ao esperado?
  • Comunicação. Como as informações circulam? Com que tom, com que frequência, por quais canais?
  • Comportamento de quem lidera. O que você modela, todos os dias, com suas próprias atitudes?

Esses cinco pontos, juntos, formam o sistema real da sua igreja. Muito mais real, aliás, do que qualquer coisa escrita num documento de visão.

Antes de culpar as pessoas, olhe no espelho

Aqui vai uma estimativa que pode incomodar: a maior parte dos chamados “problemas de pessoas” dentro de uma igreja não são, na verdade, problemas de pessoas. São problemas de sistema.

Deixa eu contar uma história simples que ilustra isso muito bem.

Um pastor tinha uma tarefa simples para os filhos adolescentes: levar o lixo até a rua. Toda semana era a mesma cena. Ele pedia uma vez, ninguém fazia. Pedia de novo, ninguém fazia. Só depois da terceira cobrança, já impaciente, alguém finalmente levava o lixo.

Ele se pegou pensando: “que falta de consideração desses meninos”. Até perceber uma coisa incômoda: quem tinha criado aquele padrão era ele mesmo. Ao cobrar sem nenhuma consequência real, ele ensinou, sem querer, que só valia a pena obedecer na terceira vez.

A solução não foi um discurso mais emocionado sobre responsabilidade. Foi mudar o sistema. Ele ofereceu para levar o lixo no lugar dos filhos, todas as semanas, em troca da mesada deles. Bastou isso. Ninguém mais precisou ser lembrado.

O comportamento nunca foi o problema real. O sistema por trás dele é que precisava mudar.

Isso vale para a sua equipe também. O sistema que você herdou, adotou ou construiu é o que vai continuar determinando o que sua equipe e seus voluntários fazem, quer você perceba isso ou não.

Guarde este princípio: o que é recompensado se repete. Não importa o que você pede, ensina ou coloca no papel. As pessoas repetem aquilo que, na prática, é valorizado.

Sua missão está na parede. Seu sistema está no corredor.

Toda igreja tem uma declaração de missão bonita, emoldurada, talvez até numa parede bem visível da entrada. Isso é importante, não tem problema nenhum em ter isso.

Mas aqui está uma verdade difícil de engolir: o que está pendurado na parede nunca vence o que está acontecendo no corredor, no dia a dia real da sua equipe. Sempre.

É por isso que tantos líderes chegam animados a um novo ministério, cheios de visão, e alguns anos depois se sentem exatamente tão travados quanto no primeiro dia. Eles trouxeram uma visão nova, mas nunca mexeram nos sistemas antigos. Sem mexer no sistema, a visão simplesmente não tem onde acontecer.

Sua equipe está fazendo, no fundo, exatamente aquilo que você, intencionalmente ou não, ensinou e recompensou que ela fizesse. Quando alguma coisa não está funcionando, o primeiro lugar para procurar respostas não é a lista de voluntários. É o espelho.

Quatro perguntas para saber se o seu sistema está travando sua liderança

Antes de sair reformulando tudo, vale avaliar se o seu sistema atual está, sem querer, sufocando as pessoas certas. Aqui vão quatro perguntas simples para essa avaliação:

  • Seu sistema permite recrutar e envolver as melhores pessoas para cada função? Ou existem regras antigas, comissões ou tradições que travam quem pode ocupar cada lugar, mesmo quando há alguém mais preparado disponível?
  • Seu sistema dá liberdade para reunir as pessoas certas na hora de decidir? Uma equipe de liderança deveria ser formada pelas pessoas mais capacitadas para aquele momento, não por cargos fixos que nunca mudam.
  • Decisões complexas são tomadas por um grupo pequeno e bem informado? Decisões grandes, financeiras ou estratégicas, exigem gente que consiga entender os detalhes de verdade. Discussões grandes demais tendem a ser vencidas por quem fala mais alto, não por quem tem a melhor resposta.
  • Existe uma pessoa clara, de fato, responsável por prestar contas? Toda organização saudável precisa de alguém que responda pelas decisões finais. Sem isso, a responsabilidade se dilui e ninguém sabe, na prática, quem decide o quê.

Se você respondeu “não” ou “mais ou menos” para alguma dessas perguntas, ainda não troque a sua equipe. O ajuste provavelmente não está nas pessoas. Está no sistema em volta delas.

O exercício de três perguntas para aplicar essa semana

Aqui vai um exercício simples e prático para fazer com sua equipe mais próxima ainda essa semana. Reserve um tempo, reúna algumas pessoas de confiança e respondam juntos a estas três perguntas:

  • Quais comportamentos a gente gostaria de ver no nosso time ou na nossa igreja? Liste três. Pode ser pontualidade, generosidade, hospitalidade com visitantes, envolvimento em grupos pequenos: o que for mais relevante para o seu contexto.
  • O que estamos fazendo, sistematicamente, para incentivar cada um desses comportamentos? Um anúncio isolado não conta. Uma série pontual também não. A pergunta é: existe alguma coisa constante sustentando esse comportamento?
  • O que estamos fazendo, talvez sem perceber, que incentiva exatamente o comportamento oposto? Essa é a pergunta mais desconfortável. E também a mais reveladora.

Se, na segunda pergunta, sua equipe tiver dificuldade para listar qualquer coisa concreta, você encontrou o problema. Não é falta de compromisso das pessoas. É falta de um sistema que sustente o comportamento que você tanto deseja ver.

Liderar de verdade exige o trabalho que ninguém aplaude

Existe uma palavra que resume bem o tipo de liderança que gera mudança real: diligência. Não é apenas liderar, é liderar com todo o peso, com toda a atenção, inclusive nas partes menos visíveis e menos aplaudidas do processo.

Parte do trabalho diligente de um líder é justamente esse: analisar sistemas. Ter as conversas difíceis. Olhar para debaixo do tapete e descobrir o que preferiríamos não descobrir. Depois, ter coragem de mudar o que for preciso.

Você não tem tempo a perder, nem talento para desperdiçar, tentando remendar coisas que nunca vão funcionar do jeito que estão. E a boa notícia é que você não precisa de uma visão nova, nem de um princípio revolucionário, para começar.

Precisa apenas voltar para casa e perguntar: o que queremos que nosso pessoal faça? O que estamos fazendo para sustentar esse comportamento? E o que estamos fazendo, sem perceber, que está no caminho contrário?

Faça esse trabalho difícil, e seus sistemas vão mudar. Quando os sistemas mudam, a visão e a missão que você tanto sonha finalmente deixam de ser só uma frase na parede e se tornam realidade no dia a dia da sua igreja.

Para aprofundar ainda mais esse assunto, assista ao vídeo Andy Stanley – Systems.

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