A igreja não é um clube: por que estamos falhando em alcançar quem está de fora

A maioria das igrejas hoje cresce por um fenômeno que conhecemos bem: a migração. Um cristão sai de uma congregação, por mil motivos, e bate à porta de outra. Mas e quanto àqueles que nunca pisaram em uma igreja? E quanto aos “de fora”, as pessoas que não conhecem a linguagem, os costumes e, muitas vezes, nem quem foi o apóstolo Paulo?

A verdade é que temos uma tendência natural — e humana — de criar panelinhas. Lembra da escola, quando um aluno novo chegava no meio do ano? Ele era o “estranho”, o intruso que precisava ralar para ser aceito. Infelizmente, tratamos o Reino de Deus da mesma forma. Criamos ambientes que, sem perceber, dizem em alto e bom som: “Você não pertence a este lugar.”

Se queremos ser uma igreja que realmente alcança o perdido, precisamos lutar contra a nossa própria religiosidade. Precisamos parar de construir muros com a nossa liturgia e começar a construir pontes. Afinal, a igreja foi feita para ser um farol para o mundo, não um museu para santos.

O “Evangeliquês” moderno e a barreira da linguagem

Você já parou para ouvir o seu próprio sermão com os ouvidos de alguém que nunca abriu a Bíblia? Muitas vezes, falamos um “evangeliquês” tão denso que se torna incompreensível. Citamos personagens bíblicos como se fossem vizinhos de todo mundo. Mas a realidade é que, para o homem moderno, José pode ser apenas o pai de Jesus ou o santo de algum feriado.

Se você vai falar de Paulo, explique quem ele foi. Se vai falar de José do Egito, deixe claro que ele viveu milhares de anos antes de Jesus. A clareza é uma forma de amor. Quando simplificamos a nossa comunicação, não estamos “diluindo” o Evangelho, estamos removendo pedras do caminho de quem está tentando encontrar a Cristo.

A contextualização não é uma estratégia de marketing; é uma necessidade bíblica. Pedro teve que aprender isso com Cornélio, superando sua própria resistência em se misturar com quem ele considerava “impuro”. Se Jesus lavou os pés dos discípulos para nos ensinar o serviço, por que ainda insistimos em exigir que o visitante se adapte a nós antes de ser servido por nós?

Pequenos detalhes que gritam exclusão

Muitas vezes, a exclusão não está no que dizemos no púlpito, mas nas pequenas estruturas do nosso domingo. Pense, por exemplo, em um sistema de check-in para crianças. Se você coloca uma placa de “Membros” e outra de “Visitantes”, você já criou uma segregação visual imediata. Você está dizendo ao pai que acabou de chegar: “Você é diferente, você ainda não faz parte do grupo.”

Outro exemplo comum: murais com fotos e aniversários apenas dos “membros oficiais”. O filho do visitante olha para aquilo e percebe que ele é o único sem nome na parede. O que parece uma homenagem carinhosa para quem já está dentro, comunica rejeição para quem está fora. São barreiras invisíveis que criamos com a melhor das intenções, mas que geram um sentimento de não pertencimento.

  • Sinalização: Ela é amigável para quem nunca entrou no seu prédio?
  • Acolhimento: Seus membros preferem conversar entre si (com os “amigos de sempre”) ou estão atentos à pessoa que está sozinha no café?
  • Ambiente: O seu culto parece uma reunião de condomínio fechada ou um convite aberto para uma festa?

Uma cultura que respira o próximo

Mudar essa realidade exige mais do que reformar o prédio ou trocar o sistema de som; exige uma mudança de cultura. A igreja precisa ser lembrada, constantemente, de que ela não existe para si mesma. Em algumas comunidades saudáveis, a visão de que “esta igreja é para quem está de fora” está pregada literalmente nas paredes.

Isso incomoda? Sim. De vez em quando, ouviremos reclamações de que as “ovelhas velhas” estão sendo esquecidas. Mas a maturidade cristã consiste justamente em entender que eu já fui alcançado e agora é minha vez de servir a próxima pessoa. Se eu quero ser o maior no Reino, preciso ser aquele que serve — e o serviço mais radical é preparar o lugar para quem ainda não chegou.

Precisamos cercar a igreja com essa mentalidade: na pregação, nos grupos pequenos, no curso de novos membros e na liturgia. Cada detalhe da estrutura deve ser conformado à realidade de que o Evangelho é para todos, especialmente para aqueles que o mundo — e às vezes a própria religião — decidiu ignorar.

Encerramento: Do que você está disposto a abrir mão?

A pergunta final para cada líder e cristão é simples, mas dolorosa: você ama mais o seu conforto e as suas tradições do que a alma do seu vizinho? Alcançar os de fora exige sacrifício. Exige abrir mão de certos usos, costumes e preferências pessoais para que o caminho até a Cruz seja o mais livre possível de obstáculos humanos.

Não deixe que a sua igreja se torne um clube fechado onde só entram os “puros” ou os “conhecidos”. Quebre as placas de segregação, simplifique a linguagem e abra o coração. A próxima pessoa que passar pela sua porta pode estar a uma barreira de distância de uma eternidade com Deus. Não seja você essa barreira.

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